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sábado, 8 de julho de 2006

Porque Lula saiu do palanque bélico de Chávez.


Míriam Leitão

O peso das escolhas

“Incertidumbre” parece mais incerta do que a nossa “incerteza”. A palavra soa mais dramática. Serve para descrever o curto prazo no México no qual o candidato que perdeu as eleições não aceita o resultado e convoca manifestações para hoje. Mas, a médio prazo, isso estará resolvido, e o México terá dado mais um passo importante no seu processo democrático que começou nos anos 80.

O cientista político Octavio Amorim Neto diz que não está preocupado com a democracia mexicana no médio prazo, mas acredita que o curto prazo será de muita tensão. Não acha que houve fraude e pensa que o desafio será montar o governo dos próximos seis anos. Mas a eleição do México produziu momentos desconcertantes esta semana. Diferença assim tão pequena numa votação nunca se viu na América Latina. Mas, lembra Octavio, acaba de acontecer na Alemanha e na Itália. Aconteceu também na disputa entre George Bush e Al Gore.

— Esta foi a eleição mais monitorada do México, pelas universidades e por instituições internacionais. Ninguém levantou dúvida sobre o processo. A questão é que o PRD, partido de López Obrador, não esperava esta derrota e optou por contestá-la. Eu não tenho grandes sobressaltos em relação à democracia mexicana no médio prazo, mas o clima piora muito no curto prazo e os próximos meses serão turbulentos — afirma.

A posse do novo presidente será apenas em dezembro; até lá, haverá tempo para se apaziguarem as dúvidas e para que o presidente eleito, Felipe Calderón, tente formar seu governo. Calderón disse que quer formar um governo de coalizão, isso é bom, mas não suficiente. Formar a coalizão é mais fácil falar do que fazer.

— O México tem um azar a mais na formação das coalizões, que é a distribuição das preferências eleitorais. O país está dividido em três. O PAN, à direita, deveria formar a aliança com o PRI, ao centro, mas o PRI foi o partido do antigo regime, que se quer superar — comenta Octavio.

Durante o governo Fox, dificuldades comuns ao presidencialismo da América Latina impediram várias reformas e votações no Congresso. O governo teve que abandonar algumas idéias, como a de reforma na área energética. No Congresso, Fox montou uma política complexa de alianças, explica Octavio: quando o assunto era consolidação democrática, PAN e PRD cooperavam; quando eram temas de reforma econômica, os dois partidos eram inimigos; em alguns temas de política econômica, Fox tinha o apoio do PRI.

— O padrão é que essas alianças se reflitam na formação do Ministério. O ideal seria que se formasse a aliança entre os dois partidos mais votados, para que não aconteça de largas fatias do eleitorado serem sub-representadas no poder. No México, os dois candidatos tiveram quase a mesma votação, mas, pelas regras, um deles estará no poder e o outro não. Na Alemanha, aconteceu o mesmo caso, um quase empate entre a Democracia Cristã, de Angela Merkel, e a Social Democracia, de Gerhard Schroeder. Houve na Alemanha um momento de tensão inicial, mas a solução foi a formação de um governo sob a liderança de Merkel em que a Social Democracia tem muitos cargos — explica Octavio.

Ele lembra que, na Itália, isso não foi possível porque a campanha foi muito agressiva, com trocas de ofensas, e Silvio Berlusconi é uma pessoa muito controversa. Nos Estados Unidos, não houve crise porque o candidato que ganhou no voto popular e perdeu pelas regras eleitorais, Al Gore, aceitou o resultado apesar de a Suprema Corte ter dado um parecer partidário: os ministros escolhidos pelos governos republicanos votaram a favor do Partido Republicano.

No Brasil, Octavio Amorim Neto acha que não está afastada a hipótese de que possa haver um segundo turno muito disputado, apesar de o cenário de agora parecer indicar uma tranqüila reeleição do presidente Lula:

— O Brasil está dividido também, entre os que querem punir Lula pelos seus erros e os do PT e os que querem dar mais uma chance a ele pelas políticas econômica e social.

O que fica também da eleição no México é, na opinião do cientista político, o fim da idéia de que há uma onda esquerdista na América Latina. Alguns países elegeram governos de esquerda; outros, de direita, como a Colômbia e agora o México. Na eleição no Peru, em que ganhou o centro, e agora no México, outro ponto ficou claro: Hugo Chávez pode ser um fator negativo para os candidatos.

— Chávez virou um passivo eleitoral na região. Um dos problemas de López Obrador (que durante dois anos liderou todas as pesquisas) foi Hugo Chávez — diz Octavio Amorim.

Da mesma forma que o apoio do presidente venezuelano a Ollanta Humala derrubou o candidato da esquerda peruana, o ataque de Chávez a Fox acendeu o sentimento nacionalista dos mexicanos. Os apoios de Chávez estão saindo pela culatra. Talvez tenha sido por isso que o presidente Lula não tenha ficado em Caracas para a exibição de poder bélico que o presidente venezuelano fez no aniversário da independência do país. As fanfarronices de Chávez podem virar um passivo para Lula. A candidata da esquerda no Brasil, Heloísa Helena, tratou de fazer uma declaração contra Bush e contra Chávez esta semana. O governo Lula tentou tratar a adesão da Venezuela ao Mercosul como um fato econômico e comercial, e não mais como uma daquelas tonitruantes comemorações da tal política externa antiamericana.

Nem de esquerda, nem de direita, a América Latina vive o peso e a emoção de suas escolhas neste ano de tantas eleições.

Um comentário:

Corisco disse...

Kozel, e o Reinaldo Azevedo, hein?

Teu blog "começou" em boa hora.

Espero que não tenhas paretnes em Santo André...