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sexta-feira, 15 de junho de 2007

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BARÕES E LADRÕES

MARIA LUCIA VICTOR BARBOS

O presidente da República, sua cúpula governamental, os integrantes da mais alta hierarquia de seu partido, o PT, têm sempre um álibi quando a corrupção vem à tona envolvendo compadres e companheiros mais chegados: “Isto sempre existiu no Brasil”. E, esquecidos da promessa de que viriam para acabar com a devassidão pública por serem o único partido ético, justificam seus delitos invocando os do governo anterior, sejam eles falcatruas inventadas ou reais. No poder, finalmente, o PT conclui que, se todo mundo faz não tem importância fazer também, e que a hora é de aproveitar e ir à forra. Assim, a classe dominante foi ao paraíso, inclusive, aos paraísos fiscais, como ilustrou Duda Mendonça em pleno Congresso Nacional ao depor numa daquelas CPIs, as famosas Comissões que fazem muito barulho por nada.

É verdade que a corrupção é nossa antiga companheira. Faz parte de nosso tecido social desde os primórdios coloniais. E, conforme escrevi em um dos meus livros, América Latina – Em Busca do Paraíso Perdido, referindo-me à vinda da corte para cá, “em 1808, instalaram-se de uma vez por todas nestas plagas as características do Estado português, que em terra nova não perderia sua tradicional essência patrimonialista. Segundo Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder: ‘Os reis portugueses governavam o reino como a própria casa, não distinguindo o tesouro pessoal do patrimônio público’. Era também um Estado corrupto na medida em que para tudo se dependia dele, do seu excessivo quadro de funcionários, da morosidade típica da burocracia, correndo soltas as propinas para aligeirar licenças, fornecimentos, processos, despachos, etc. Em toda parte das entranhas do desajeitado e ineficiente Leviatã conduzido por D. João VI, traficava-se influência, negociava-se a coisa pública em proveito próprio”.

Em artigo no Caderno Mais, da Folha de São Paulo, de 03/06/2007, a historiadora Isabel Lustosa mostra exemplo de grande corrupto na pessoa de Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço, Tesoureiro-mor de D.João VI. A Targini foi dedicada a significativa quadrinha: “Quem furta pouco é ladrão/quem furta muito é barão/quem mais furta e mais esconde/passa de barão a visconde”. Isabel se refere também aos “pequenos corruptos, incultos e quase analfabetos, como o barbeiro Plácido”.

Do Império até os dias de hoje, “barões” e ladrões continuam a praticar a corrupção favorecidos pela impunidade, pelo Estado patrimonialista e excessivamente burocratizado, pela ausência de cultura cívica, pela plasticidade moral do brasileiro.

Entretanto, como gosta de dizer o presidente da República, “nunca, antes, nesse país”, se viu uma profusão tal de Targinis, de “barões”, de ladrões que se espalham por todos os Poderes Constituídos, que se esparramam pelas instituições, que usufruem da intimidade do “rei”. Quando se pensa que chegamos ao fundo, que neste governo começou a ser cavado por Waldomiro Diniz, os escândalos se multiplicam, assim como as inúteis CPIs e as espetaculares operações da Polícia Federal que expõem a podridão moral da coisa pública. Os casos escabrosos são tantos e tantos os personagens neles envolvidos, que a opinião pública vai sendo anestesiada e, numa inversão de valores, passa a conceber o que era errado como certo. Na esteira dos acontecimentos sobrepõe-se de tal modo os Targini, que vai se apagando da memória coletiva até as mais recentes personagens envolvidas na rapinagem. Diante da operação Xeque Mate, que comprometeu irmãos do presidente da República, vão caindo no esquecimento as “façanhas” de companheiros e compadres presidenciais como José Dirceu, Antonio Palocci, Luiz Gushiken, Delúbio Soares, José Genoino, Paulo Okamoto, Osvaldo Bargas. Jorge Lorenzetti, Freud Godoy e tantos outros. Até Zuleido e Renan Calheiros vão escapando pela fresta da amnésia popular. Aos brasileiros mais conscientes e atilados fica a impressão de que o governo ora em curso é uma mistura de máfia, circo e bordel.

É verdade que desde que o ex-deputado Roberto Jefferson tocou sua “trombeta de Jericó”, derrubando até o todo-poderoso José Dirceu, nunca, antes, nesse país tinham vindo à tona tantos “barões”. Mas, proporcionalmente, nunca houve tanta impunidade, pois os Targini continuam livres, leves e soltos. São muitas ações e poucas condenações. Muitas CPIs e raríssimas cassações de mandatos.

Em meio à sordidez reinante, sobrepõe-se emblematicamente, como o barbeiro redivivo do Império, o irmão dileto do presidente da República, Genival Inácio da Silva, vulgo Vavá, a quem Roberto Jefferson certamente chamaria de “petequeiro”, pois o bondoso mano oferece malandramente por pequenas quantias, até aos compadres do submundo do crime, seus serviços que não são entregues. Seria ele também ‘a cara do povo”? Pode ser. Afinal, não é o próprio povo que escolhe malandros, trambiqueiros e mafiosos para representá-lo? Portanto, não há do que se queixar. Nem mesmo do prejuízo anual de R$ 40 bi que a corrupção causa ao país.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

mlucia@sercomtel.com.br

Um comentário:

Stella disse...

para quem esperava que um bando de ignorantes e ávidos pelo poder iriam acabar com a corrupção era para se declarar muito ingênuo, contudo surpreende a forma como eles conseguiram expandi-la.